quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Ubuntu: a vida além da competitividade


Walter S. Barbosa(*)
Freqüentemente a vida indígena nos é apresentada como o ideal comunitário na prática. Será porque são inocentes criaturas, alheias aos vícios da civilização, onde a disputa, o ardil e a cobiça são acrescentados ao instinto que herdamos do reino animal? Um pouco disso, talvez. Deve influenciar também o fato de obterem a sobrevivência na base do “Um por todos e todos por um”.

No Festival Mundial da Paz, em Florianópolis (2006), a jornalista e filósofa Lia Diskin relatou o caso de uma tribo na África chamada Ubuntu, como segue:

“Um antropólogo estava estudando os usos e costumes de determinada tribo e, quando terminou seu trabalho, teve que esperar pelo transporte que o levaria até o aeroporto de volta pra casa. Sobrava muito tempo, mas ele não queria catequizar os membros da tribo; então, propôs uma brincadeira para as crianças, que achou ser inofensiva. Comprou uma porção de doces e guloseimas na cidade, colocou tudo num cesto bem bonito, com belo laço de fita, e colocou debaixo de uma árvore. Aí chamou as crianças e combinou que quando ele dissesse “Já” deveriam sair correndo até o cesto. A que chegasse primeiro ganharia todos os doces que estavam lá dentro. As crianças se posicionaram na linha demarcatória que ele desenhou no chão e esperaram pelo sinal combinado. Quando ele disse “Já”, instantaneamente todas as crianças se deram as mãos e saíram correndo em direção à árvore com o cesto. Chegando lá, começaram a distribuir os doces entre si e comeram felizes”.
           
O que achou desse desfecho o antropólogo? À semelhança do que ocorre nas comunidades fechadas dos “homens brancos”, tudo que os nativos obtêm da mata, dos rios ou do cultivo embrionário da terra é repartido igualmente entre todos. A proximidade da floresta é garantia de que amanhã tem mais.  Ocorreria o mesmo comportamento em relação a algo especial que pudesse pertencer a apenas um? Lançada em 1980 e tendo por inspiração outra aldeia africana, a excelente comédia “Os deuses devem estar loucos” sugere a resposta:
           
Ao sobrevoar a tribo de bosquímanos onde morava Xixo (personagem central), no deserto do Kalahari, foi jogada do avião uma garrafa vazia. Os nativos logo descobriram para ela muitas utilidades – como socar alimentos e esticar peles – sendo considerada um presente dos deuses que cruzaram o céu. Mas o que ocorreu em seguida? Todos querendo usá-la ao mesmo tempo, começaram a brigar por sua posse, desaparecendo a antiga concórdia. O presente se tornou maldição, obrigando Xixo a ganhar o mundo com uma trouxinha nas costas, a fim de devolver a garrafa aos deuses.
           
Em nosso dia-a-dia, bombardeia-nos constantemente a propaganda de utilidades duvidosas, apresentadas como irresistíveis ofertas pelos “deuses” que alimentam o consumismo no mundo. Ao invés de proceder como Xixo – descartando o que gera discórdia ou inveja – competimos e nos sacrificamos para obtenção dessas “garrafas vazias”, fazendo disso a razão de viver. Acabamos morrendo, no entanto, para aquilo que importa: a beleza do esforço cooperativo, o amor e a paz.
           
Quanto ao antropólogo, surpreso com o final da competição proposta às crianças, perguntou-lhes por que tinham ido todas juntas se uma só poderia vencer a corrida, ganhando muito mais doces. Elas responderam: “Ubuntu, tio. Como uma de nós poderia ficar feliz se todas as outras estivessem tristes?”.
           
Segundo a narrativa, ubuntu significa “Sou quem sou porque somos todos nós!".
(*) Membro da Sociedade Teosófica e da Universidade Livre para a Consciência.

Um comentário:

Baquita disse...

Segundo o livro: O Direito Internacional da Pobreza - um discurso emergente, de Lucy Williams, refere Justice Lanca sobre ubuntu na página 231 o seguinte: « O conceito tem alguma pertinência para os valores que devemos sustentar. É uma cultura que põe a tónica na comunidade e na interdependência dos membros da comunidade. Reconhece o estatuto da pessoa como um ser humano, com direito ao respeito sem condições, à dignidade, à estima e à aceitação dos membros da comunidade a que a pessoa pertence.» e acrescenta: « Ainda mais importante, ubuntu regula o exercício dos direitos pela ênfase que põe na partilha e na corresponsabilidade e no gozo mútuo dos direitos de todos.» Isto num contexto da Africa do Sul!!!