terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

"Estar certo é tornar o outro errado"


Walter da Silva Barbosa[1]
O ego – nossa parte humana, em oposição à espiritual – quer sempre estar certo como garantia de sobrevivência. Mesmo quando sua posição vai contra as leis o ego encontra meios de justificar-se, até contando com a proteção divina, “Graças a Deus”.

Exemplo disso é o vídeo intitulado “Profissão ladrão”, onde um jovem de 30 anos classifica sua atividade como fonte de emprego para o repórter que o entrevista, além do delegado, policiais e a estrutura do judiciário. Todos estariam desempregados sem sua colaboração. Quanto às pessoas prejudicadas, a resposta é rápida e de certo modo original: “São mais pecadores do que eu, do contrário Deus não permitiria”.
           
A mente é a raposa que guarda o galinheiro. A raposa, naturalmente, é o ego. Nessa condição, quando é possível ele estar certo?
           
Segundo Tolle[2] “Estar certo é tornar o outro errado” ou, no mínimo, cúmplice do erro. O jovem do vídeo não faz outra coisa. Mesmo aparentando ter pouca ou nenhuma instrução, seus argumentos o deixam perfeitamente à vontade. Do que são capazes então, as mentes buriladas em argumentos refinados, sutileza e astúcia?
           
“Queixar-se, assim como encontrar erros nos outros ou assumir uma atitude reativa, fortalece o sentido de limite e de separação característico do ego e do qual ele depende para sobreviver. Mas todas essas ações também o reforçam de outra maneira, dando-lhe uma sensação de superioridade que o faz se expandir”.
           
A reatividade movimenta as águas do passado. Nada de novo nisso, pois o ego é a própria cara do passado, construída desde nossa infância quando os primeiros traços do “eu” e do “meu” surgiram com o nome e o primeiro brinquedo que ganhamos. Quanto esforço não fazem os pais, a fim de evitar que a inveja entre irmãos acabe em brigas e até ressentimentos para toda a vida? Daí em diante o patrimônio do ego não cessa de crescer, englobando, além dos tesouros materiais, os psicológicos – como pontos de vista e julgamentos – decerto mais arraigados e difíceis de superar em razão da invisibilidade.
           
“O ego leva tudo para o lado pessoal. Surge a emoção, assim como a atitude defensiva, talvez até a agressão. Estamos defendendo a verdade? Não, a verdade nunca precisa de defesa. Nem a luz nem o som se importam com o que eu, você ou qualquer outra pessoa pense. Estamos protegendo a nós mesmos ou então a ilusão de nós mesmos, o substituto produzido pela mente”, diz Tolle.
           
Em relação a determinada coisa, qual a distância entre nossa opinião e o fato que ela representa? A própria opinião, que nada tem a ver com a coisa. “O ego é sempre um mestre da percepção seletiva e da interpretação distorcida. Apenas por meio da consciência – e não do pensamento – somos capazes de diferenciar entre fato e opinião. Somente por intermédio da consciência uma pessoa consegue ver o seguinte: esta é a situação e aqui está a raiva que sinto dela”. Quando conseguiremos chegar a isso?
           
Na condição separatista que o alimenta, o ego jamais pode estar certo. A verdade que ele busca – e pela qual pode injuriar, matar – não depende de qualquer autoridade ou elemento externo para existir: é Deus, nosso próprio Ser. Assim, o que o ego defende? Algo tão condenado à extinção como ele mesmo: apenas um ponto de vista. Nada mais que “um punhado de pensamentos”.


[1]Membro da Sociedade Teosófica e da Universidade Livre para a Consciência - UNICONS
[2] TOLLE, Eckhart. “O Despertar de uma Nova Consciência”, Editora Sextante.

2 comentários:

Francisco de Assis Ferrato disse...

explicado de forma simples e clara.

Francisco de Assis Ferrato disse...

explicado de forma simples e clara.